Odisseia Visual

Uma viagem cultural pelo mundo através da critica cinematográfica

O Som ao Redor

Entre a verticalização e a espiritualização do meio

 

 Este é o primeiro longa-metragem do diretor Kleber Mendonça Filho, uma pessoa que tem ganhado muito destaque após filmes como Aquarius (2016) e Bacurau (2019). Aqui acompanhamos a vida em um bairro de classe média na cidade de Recife, uma área com diversos edifícios e perto da praia, mas que tem sofrido com alguns assaltos. Com isso, surge uma agência de segurança privada, prometendo garantir uma maior tranquilidade para os moradores. Contudo, parece que a mudança acaba causando mais instabilidade na região.

 O filme acompanha diversas figuras do bairro, famílias e trabalhadores, sempre com um toque, voltando para a identificação de algumas questões sociais que se desenvolvem no meio, como a diferença de classes, desigualdade, preconceito e um elitismo social. Constantemente somos apresentados a uma dialética interna na narrativa, entre aqueles que muito tem e os que quase nada possuem, em alguns momentos o meio traz um sentido ditatorial, de uma soberania imposta, um espaço de ordem rígida e opressiva. Um exemplo bem simples é quando uma empregada quebra um aparelho eletrônico e a dona da casa grita com ela e se engrandece como se a trabalhadora não fosse nada. Assim, vai se revelando um espaço bem efervescente, com diversas micro agressões que retiram qualquer beleza externa que o bairro possui, e o transforma em um parque de horrores.

 Ainda assim, nada disso seria tão impactante se não fosse bem encenado. Mendonça tem um estilo de filmagem bem específico, seu plano prioriza uma distribuição horizontal das coisas, uma imagem bem alargada, como se fosse abrir para uma paisagem esplêndida, mas é como se durante todo o filme esse quadro fosse mais dominado por linhas verticais (os prédios), que formam uma estrutura opressora e intimidadora para aqueles que olham debaixo. A decupagem do diretor trabalha muito com planos mais estáticos, com poucos movimentos, locomovendo o olhar por meio do zoom, em uma aproximação gradual que vai especificando e recortando a imagem, mas principalmente caracterizando e expondo uma natureza mais selvagem e nefasta. Podemos pegar a maneira como é filmada uma cena em que uma mulher vai fumar dentro de casa, mas que para não deixar cheiro, ela pega um aspirador de pó para sugar a fumaça. A cena começa com o plano bem aberto, tendo a personagem em perfil segurando o cano do aparelho, conforme ela fuma, a imagem se aproxima, o olhar banal vai se reconfigurando em uma percepção diferente, vemos lentamente a fumaça sair a boca e ir para o cano, mas é como se a câmera não percebesse mais somente aquilo, carrega o ato com sugestões, quase como se fosse a alma que estivesse sendo puxada ali.

 Cito essa passagem para mostrar como em alguns instantes KMF consegue transformar o espaço, ou melhor, desvelar o meio. Não é como se ele estivesse reconfigurando tudo ali, mas mais buscando extrair algo enraizado, estruturado nas bases daquele modo de vida.  A melancolia, o ódio, a insignificância e o desprezo são sentimentos compartilhados, quase como uma maldição, ou um castigo.

 Todo esse lado mais sinistro da obra se caracteriza de diversas formas em alguns personagens, mas acontece muito por meio de um tormento, um medo e uma insegurança psicológica. Vemos isso em João quando a cachoeira fica toda avermelhada, ou na criança que imagina sua casa sendo assaltada. A realidade vai se caracterizando cada vez mais como um espaço de horror, e o sombrio como base comum daquele meio, o qual é composto de gritos e sussurros. O latido do cachorro, por exemplo, já é suficiente para despertar uma ira, uma vingança e até uma explosão. A encenação trabalha muito em cima dessa instabilidade do meio, o nome do filme é uma ótima escolha, já que mostra a importância e potência daquilo que nos rodeia, uma presença que as vezes pode não estar ao alcance do olhar, mas que ainda pode ser sentida e presenciada.

 A forma que se filma as cidades, as ruas, as grades e colunas vão formando uma noção de aprisionamento, de uma espiritualização do urbano, como uma selva de concreto em que as pessoas se auto aprisionam do mundo, o que revela o caráter e a fragilidade destas. Mas o frágil não vem como porta para uma piedade sentimental, funciona mais como uma máscara, como se estivesse desvelando uma aparência antes propagada na superfície.

 Mendonça consegue brincar muito bem com um meio que aparentemente se apresenta de forma concreta, trabalha a câmera como esse veículo mais íntimo, investiga os medos das pessoas, adentra em um espírito mais perverso no todo, consegue criar uma atmosfera crua e até assustadora. A maneira como encerra seu filme, no arco da vingança, é o tipo de coisa que não é anunciado, mas é um evento que tem sua base montada ao longo da narrativa, talvez por isso o momento não pareça tão abrupto, já que dentro de um meio com tanto ódio sendo destilado, seria normal alguém se revoltar em algum momento. O som ao redor é justamente sobre isso, sobre aquilo que permeia, possui um olhar objetivo, porém, bem aberto, capaz de capturar qualquer distorção mais sensível nesse mundo fragilizado e instável.

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